
* Título original publicado no Jornal O Popular em 3 de agosto de 1998
No livro “A vingança da Tecnologia”, Edward Tenner um bacharel em artes descreve as irônicas conseqüências das inovações mecânicas, químicas, biológicas e médicas deste fim de século. Como não poderia faltar, a “deusa” informática teve lá seu espaço garantindo.
Irônico é o efeito da informatização em massa das escolas em nosso país sem a devida discussão do projeto pedagógico que deveria acompanhar toda a tecnologia subjacente.
A IBM, por meio de sua coordenadora do projeto Novos Horizontes (financiamento de software e hardware nas escolas) em discurso aberto e publicado em 1995 na “falecida” reviste de informática Conecta (Editora Bloch) dizia que (…)“não era mais hora de se discutir qual seria o projeto pedagógico a acompanhar a entrada de laboratórios de informática nas escolas”, segundo ela “o momento seria de introduzir novas tecnologias, o restante se pensaria depois ”.
A França em 1980 (atualmente o governo brasileiro quer ou pelo menos tenta fazer na escola pública a mesma coisa) massificou a tecnologia da informação nas escolas para depois, se descobrir que foi um completo fracasso. Guardadas a devidas proporções de épocas e avanços tecnológicos, é o que vem acontecendo na maioria das escolas que resolvem implementar tal disciplina: a informática em seus currículos, mas esquecendo-se de discutir o principal objeto dela: o ensino “de” informática ou o ensino “por meio” da informática
Basta observar o projeto de marketing da escola e verificar que o mais importante é mostrar alunos sendo fotografados em modernos laboratórios de informática. Em apenas meia hora de conversa nestas escolas com seus respectivos diretores, a única coisa que sabem explicar são as configurações dos computadores que equipam a sala de informática, difícil mesmo é saber qual o método & metodologia (tradicional, construtivista, montessoriano, etc) usado pela escola para enfrentar o principal desafio que têm com nossas crianças e adolescentes: a tarefa de educar.
Onde está a ironia? Basta verificar a origem escolar dos lammers (pessoas que se acham hackers) que recentemente fizeram a festa em algumas invasões aos sites do governo federal. Verdadeiras inteligências usadas de forma equivocada. Estudando nos melhores colégios que equipados com as últimas tecnologias de informação, mas utilizando seus conhecimentos para uma prática ilícita. Não seria este o momento exato de se questionar que mais louvável seria que a escola adotasse também disciplinas como a Filosofia e essa diseminasse a Ética na Informática que tanto nossos filhos precisam, já que se tornaram “feras” no computador? Muito conhecimento não implica em sabedoria e o limite que separa o crime de arroubos juvenis é muito tênue.
Em contrapartida exigimos que além de computadores e cursos de línguas estrangeiras para nossos filhos, a escola ainda tenha uma polícia particular para manter longe da porta do estabelecimento, traficantes e outros facínoras. Vamos precisar mais do que isto!
Na internet os chamados “mercenários da web” (nova modalidades de crackers de computadores) estão a cooptar nossos filhos “feras” em computadores que se disponham a participar de “testes de fragilidade nos sistemas”, na verdade invasões cuidadosamente planejadas com fins ligados a espionagem industrial.
Por quê? Sabem os criminosos (a exemplo dos criminosos tupiniquins) da existência da inimputabilidade penal para os nossos menores, prevista pela Lei 8.069, de 13 de julho de 1990 o famoso ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente. Estão bem informados, pois coincidentemente no dia 13 do mês passado, ao completar nove anos da lei, concomitantemente também marcou o dia das invasões feita por adolescentes em diversas máquinas no Brasil com o temido cavalo de troia (Back Orifice 2000).
Nossas filhas também estão sendo alvo de outros tipos de ataques como as das pseudo “agências virtuais de modelos” que precisam de uma primeira foto para “análise” e caso sejam aprovadas precisam de uma mais ousada “mais quente+” para completarem o ciclo. Duvidam? Desconfie quando sua filha insistir demais que precisa daquele scanner e câmera digital de última geração para os trabalhos escolares ficarem mais “apreciáveis”.
O passo seguinte é o envolvimento involuntário nas redes de pornografia quando não a da pedofilia. E talvez pelo inusitado da situação e inexperiência das mesmas e temendo pela reação dos próprios pais, os resgates dessas adolescentes envolvidas nessas redes têm sido difíceis.
Estas são as crianças e adolescentes que as escolas sintonizadas com o que há de melhor da tecnologia da informação vêm formando? Meninos e meninas “feras” em computação, mas incapazes de se confrontarem com situações desse tipo e de se saírem vitoriosos dos apelos mesquinhos.
Agora além da angustiante e constante preocupação de saber onde se encontram nossos filhos, ainda teremos que saber onde navegam e o que estão construindo ou fazendo em seus “santuários (quartos) sagrados”.
Quando indagadas as escolas sobre o projeto pedagógico que acompanha o laboratório de informática, têm a resposta na ponta da língua ou será na ponta dos bytes?: – Estamos formando para o mercado.
Raríssimas são as que estão aceitando o desafio moderno da educação: formar para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e ao mesmo tempo para a construção de cidadãos cada vez mais éticos, solidários e socialmente responsáveis. Escolas como essa não existem? Existem sim e ministram além de aulas de línguas estrangeiras e informática, disciplinas fundamentais como filosofia. Aliás é esta disciplina que está ajudando crianças e adolescentes a compreenderem melhor o mundo em que vivem e que, com certeza ajudarão a construí-lo melhor.
É desta escola que talvez tenha surgido um grupo de adolescentes entre 13 e 17 anos dispostos a contribuírem da melhor forma possível com seus conhecimentos no combate a certo tipo de crime na Internet: a pedofilia. Num verdadeiro trabalho de Inteligência (coleta, análise e operação) e pura adrenalina segundo eles, os garotos identificam e destroem páginas com conteúdo pedófilo na rede (inclusive ajudaram a Scotland Yard com a última operação contra a pedofilia chamada “Katedral”). O primeiro grupo conhecido por searchers (pesquisadores) localizam as páginas e provedores; o segundo grupo (watchers) estuda e mapeia as falhas do sistema que então as repassa para o grupo mais letal (no sentido da força do conhecimento) os chamados intruders (invasores) que se encarregam de destruir a página, caso o provedor insista em permanecer hospedando o conteúdo, então tiram até o provedor do ar, causando um prejuízo ainda maior. Muitos sentiram que por maior que seja o lucro com a indústria da pedofilia não compensa o prejuízo causado pelos jovens ethical hackers (hackers éticos) que ao completarem dezoito anos já têm emprego garantido no grande mercado de segurança da informação.
Recentemente o governo brasileiro teve semelhante e “brilhante” idéia de seguir os caminhos dos jovens de Cambridge, ou seja cooptar jovens para nas navegações pela Internet Brasileira denunciar os sites pedófilos encontrados.
Experiência fracassada, pois se descobriu que na verdade a intenção dos idealizadores era apenas mapear os jovens hackers para ver se descobriam os autores de algumas invasões aos seus sites. Até nessas ações não têm sido felizes. Nem foi preciso, hackers dos pampas gaúchos em entrevista ao jornal Zero Hora assumiram a autoria do feito, isentando assim os dois jovens brasilienses acusados de tal façanha.
Portanto amigo leitor que é também pai/mãe, educador(a) ou professor(a) e que compartilha dessa minha angústia, se a única coisa que a escola de seu filho sabe fazer de melhor é o marketing do laboratório de informática, você não acha que está na hora de repensar sua estratégia de escolha para o próximo ano?
Albert Einstein disse certa vez: (…) a preocupação com o próprio homem e seu destino deve construir sempre o interesse principal de todos os esforços técnicos(…) nunca esqueça disso em seus diagramas, equações, programas e scripts em geral.