{"id":251,"date":"2026-01-23T00:00:01","date_gmt":"2026-01-23T03:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdohenrique.blog.br\/?p=251"},"modified":"2026-04-04T01:25:46","modified_gmt":"2026-04-04T04:25:46","slug":"por-que-damos-nomes-femininos-a-robos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdohenrique.blog.br\/?p=251","title":{"rendered":"Por que damos nomes femininos a rob\u00f4s?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-252\" src=\"http:\/\/blogdohenrique.blog.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/porque_damos_nomes_femininos_robo-e1729881593885.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"307\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Intelig\u00eancia Artificial \u00e9 o sonho humano do servi\u00e7al perfeito: uma m\u00e1quina que aja como n\u00f3s, mas n\u00e3o tenha as necessidades mundanas que tanto dificultam\u00a0a escravid\u00e3o de outros humanos e animais. Uma entidade\u00a0que n\u00e3o precise ser alimentada, n\u00e3o precise dormir, n\u00e3o tenha desejos e n\u00e3o anseie por liberdade. Queremos m\u00e1quinas inteligentes e eficientes para identificar nossas necessidades e satisfaz\u00ea-las, mas ser\u00e1 poss\u00edvel desenvolver uma intelig\u00eancia consciente que n\u00e3o\u00a0possua sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o come\u00e7o da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, hist\u00f3rias sobre o medo de m\u00e1quinas que tomam consci\u00eancia pr\u00f3pria e aniquilam seus criadores come\u00e7aram a povoar o imagin\u00e1rio popular. O cinema tamb\u00e9m representou in\u00fameras vezes essa ansiedade humana. O modo como a figura\u00a0feminina \u00e9 implementada nessas m\u00e1quinas, e a vis\u00edvel associa\u00e7\u00e3o\u00a0na vida real de assistentes eletr\u00f4nicas a um g\u00eanero feminino chamou a aten\u00e7\u00e3o da escritora Laurie Penny. Traduzimos abaixo o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.newstatesman.com\/politics\/feminism\/2016\/04\/why-do-we-give-robots-female-names-because-we-dont-want-consider-their\">seu\u00a0texto<\/a> sobre o assunto. <!--more--><\/p>\n<p>*****<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que existem tantos rob\u00f4s projetados para se assemelhar a mulheres? A pergunta est\u00e1 se tornando inevit\u00e1vel\u00a0ao passo em que mais e mais Intelig\u00eancias Artificiais (IAs), que n\u00e3o precisam ter um g\u00eanero, aparecem no mercado com vozes e rostos femininos, incluindo Cortana da Microsoft, Alexa da Amazon e uma nova onda de estranhas rob\u00f4s sexuais comercializadas quase que exclusivamente para homens. Enquanto entramos em uma nova era de automa\u00e7\u00e3o, a tecnologia que estamos criando diz muito sobre a maneira que a sociedade v\u00ea as mulheres e o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este m\u00eas, a Microsoft lan\u00e7ou Tay, rob\u00f4 com rosto e maneirismos de uma garota adolescente que foi projetada para aprender e interagir com usu\u00e1rios no Twitter. Dentro de horas, Tay tinha sido bombardeada com abuso sexual e foi ensinada a defender Hitler, que \u00e9 o que acontece quando voc\u00ea d\u00e1 ao Twitter um monstrinho para criar. O jeito que Tay foi tratada pelos usu\u00e1rios do Twitter foi abomin\u00e1vel, mas n\u00e3o sem precedentes \u2013 os primeiros rob\u00f4s e assistentes digitais foram projetados para parecer femininos, em parte para que usu\u00e1rios, presumidamente homens, pudessem explor\u00e1-los sem culpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso faz sentido quando consideramos que boa parte do trabalho que estamos antecipando que ser\u00e1 feito um dia por esses assistentes \u00e9 atualmente feito por mulheres e meninas, por sal\u00e1rios baixos ou sem pagamento algum. Semana passada, um relat\u00f3rio da\u00a0ONS (IBGE brit\u00e2nico) finalmente quantificou o valor anual da \u201cprodu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dom\u00e9stica\u201d \u2013 a manuten\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, cuidado com os filhos e tarefas organizacionais feitas em sua maioria\u00a0por mulheres \u2013 em 1 trilh\u00e3o de libras, quase 60% da economia \u201coficial\u201d (do Reino Unido). Desde enfermeiras, secret\u00e1rias e profissionais do sexo a esposas e namoradas, o trabalho emocional que mant\u00e9m a sociedade funcionando \u00e9 ainda feminizado \u2013 e ainda estigmatizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste momento, enquanto antecipamos a cria\u00e7\u00e3o das IAs para servir a nossas necessidades particulares, organizar nossas vidas e tomar conta de n\u00f3s, e fazer tudo isso de gra\u00e7a e sem reclama\u00e7\u00f5es, \u00e9 f\u00e1cil ver quantos designers talvez se sintam mais confort\u00e1veis com essas entidades tendo vozes e rostos femininos. Se IAs forem projetados como masculinos, usu\u00e1rios podem ser tentados a trat\u00e1-los como iguais, reconhec\u00ea-los como humanos de alguma forma, talvez at\u00e9 oferec\u00ea-los um sal\u00e1rio de n\u00edvel inicial e um drink depois do trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na imagina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, rob\u00f4s human\u00f3ides tem sido por muito tempo substitutos para classes exploradas. At\u00e9 mesmo a palavra \u201crob\u00f4\u201d \u00e9 derivada da palavra tcheca para \u201cescravo\u201d. A fil\u00f3sofa Donna Haraway observa em\u00a0<em>Um Manifesto Ciborgue\u00a0<\/em>que\u00a0\u201ca divis\u00e3o entre a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a realidade social \u00e9 uma ilus\u00e3o \u00f3tica\u201d, e a hist\u00f3ria das rob\u00f4s femininas em filmes \u00e9 quase t\u00e3o longa quanto a hist\u00f3ria do cinema em si. Em quase toda encarna\u00e7\u00e3o de rob\u00f4s femininas na tela, de\u00a0<em>Metr\u00f3polis\u00a0<\/em>de Fritz Lang \u00e0 obra prima moderna\u00a0<em>Ela<\/em>, a mesma quest\u00e3o surge: IAs s\u00e3o realmente pessoas? E, se sim, podemos viver com o que fizemos a elas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em est\u00f3rias como\u00a0<em>Blade Runner,<\/em>\u00a0<em>Battlestar Galactica<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Ex Machina<\/em>, rob\u00f4s femininas s\u00e3o estupradas por homens e os espectadores s\u00e3o convidados a ponderar se esses estupros foram realmente criminosos, baseados na nossa avalia\u00e7\u00e3o de se a rob\u00f4 tem consci\u00eancia suficiente para merecer autonomia. Esta \u00e9 a mesma avalia\u00e7\u00e3o que ju\u00edzes homens ao redor do mundo est\u00e3o tentando fazer sobre mulheres humanas hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a repeti\u00e7\u00e3o da est\u00f3ria rom\u00e2ntica\u00a0\u00e9 tamb\u00e9m uma est\u00f3ria de horror. O protagonista, que \u00e9 geralmente frustrado sexualmente e rabugento, passa por agonias tentando definir se seu crush de silicone \u00e9 realmente consciente. Se ela \u00e9, \u00e9 certo ele explor\u00e1-la, ser servido por ela, dormir com ela? Se ela n\u00e3o \u00e9, pode ele realmente se apaixonar por ela? Isso importa? E \u2013 o mais aterrorizante de tudo \u2013 quando ela define sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o, ela vai se rebelar? Como ela pode ser impedida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas s\u00e3o quest\u00f5es que a sociedade em geral tem feito por s\u00e9culos \u2013 n\u00e3o sobre rob\u00f4s, mas sobre mulheres. As permuta\u00e7\u00f5es ansiosas s\u00e3o familiares para a maioria das mulheres que namoram homens. N\u00f3s podemos v\u00ea-los, lentamente, tentando decidir se somos realmente humanas, se realmente pensamos e sentimos como eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o acad\u00eamica abstrata. A ideia de que afro-americanos eram menos humanos que pessoas brancas estava consagrada na constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos at\u00e9 1868. Da mesma forma, a no\u00e7\u00e3o de que mulheres s\u00e3o menos humanas que homes tem sido usada desde os tempos de Arist\u00f3teles para justificar a priva\u00e7\u00e3o de seus direitos b\u00e1sicos. At\u00e9 mesmo hoje, encontramos homens argumentando que mulheres e meninas s\u00e3o menos inteligentes que homens, ou \u201cprogramadas pela natureza\u201d para uma vida de submiss\u00e3o e pl\u00e1cida reprodu\u00e7\u00e3o. Por muitos s\u00e9culos, a primeira tarefa filos\u00f3fica das pessoas oprimidas tem sido convencer tanto a si mesmas quanto seus opressores \u2013 assim como as IAs em nossas fic\u00e7\u00f5es culposas \u2013 que eles s\u00e3o seres vivos, pensantes, e com sentimentos, e portanto merecem liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideremos a cena cl\u00edmax em\u00a0<em>Ex Machina<\/em>, onde o g\u00eanio megaloman\u00edaco Nathan \u00e9 mostrado colecionando corpos nus de modelos antigos de rob\u00f4s femininas em seu quarto. Para Nathan, a consci\u00eancia de suas escravas sexuais est\u00e1 fora de quest\u00e3o: de carne ou de metal, mulheres nunca ser\u00e3o realmente humanas. Para as rob\u00f4s femininas, os homens que as possuem \u2013 quer seja o louco bilion\u00e1rio Nathan, ou o doce desafortunado Caleb \u2013 s\u00e3o obst\u00e1culos a serem vencidos, com viol\u00eancia se necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os ciborgues dominarem as m\u00e1quinas, os homens ainda importar\u00e3o? Na fic\u00e7\u00e3o, como na vida, uma maneira das pessoas oprimidas se libertarem \u00e9 usando tecnologia para tomar o controle das m\u00e1quinas que os fizeram. \u201cO maior problema com ciborgues, claro, \u00e9 que eles s\u00e3o a prole ileg\u00edtima do militarismo e do capitalismo patriarcal\u201d, escreve Haraway. \u201cMas prole ileg\u00edtima \u00e9 frequentemente infiel \u00e0s suas origens. Seus pais, afinal, s\u00e3o n\u00e3o-essenciais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A triste paran\u00f3ia que est\u00e1 no cerne dessas vis\u00f5es do futuro \u00e9 que, um dia, IAs seriam capazes de se reproduzir sem n\u00f3s, e sumariamente decidiriam que somos irrelevantes. Desde\u00a0<em>Metropolis<\/em>\u00a0at\u00e9\u00a0<em>Matrix<\/em>, o pesadelo \u00e9 o mesmo: se andr\u00f3ides tiverem acesso aos meios de reprodu\u00e7\u00e3o, nada os deter\u00e1. Isso \u00e9, coincidentemente, o medo b\u00e1sico que os homens tem nutrido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres desde o nascimento do feminismo, e particularmente desde o advento da contracep\u00e7\u00e3o e da tecnologia reprodutiva. Esse medo \u00e9 a raiz de muito da opress\u00e3o feminina atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alan Turing, o pai da rob\u00f3tica, se preocupava que \u201cm\u00e1quinas pensantes\u201d pudessem ser exploradas porque n\u00e3o eram conscientes do mesmo modo que \u201cseres humanos reais\u201d s\u00e3o. N\u00f3s ainda n\u00e3o decidimos, como esp\u00e9cie, que mulheres s\u00e3o conscientes \u2013 e enquanto mais e mais rob\u00f4s femininas aparecem em nossas telas e nossas est\u00f3rias, n\u00f3s dev\u00edamos considerar como nossa tecnologia reflete nossas expectativas de g\u00eanero. Quem s\u00e3o os usu\u00e1rios, e quem \u00e9 usado? A menos que possamos recalibrar nossa tend\u00eancia a explorar uns aos outros, a quest\u00e3o pode n\u00e3o ser se a ra\u00e7a humana pode sobreviver a era das m\u00e1quinas \u2013 mas se merece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/www.newstatesman.com\/politics\/uk-politics\/2016\/04\/why-do-we-give-robots-female-names-because-we-dont-want-consider-their\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The New StatesMan<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Intelig\u00eancia Artificial \u00e9 o sonho humano do servi\u00e7al perfeito: uma m\u00e1quina que aja como n\u00f3s, mas n\u00e3o tenha as necessidades mundanas que tanto dificultam\u00a0a escravid\u00e3o de outros humanos e animais. 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